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14/04/2014 às 16h55min - Atualizada em 14/04/2014 às 16h55min
Sônia Meirelles Coutinho, movida pela literatura
Filósofa e escritora da Granja Viana, “Políticos não estão nem aí para a região. Eles não pensam no povo e em cumprir o papel que a eles é devido. Só pensam na próxima reeleição”

Ainda muito jovem, Sônia Meirelles Coutinho, ou simplesmente, Sônia Coutinho, descobriu na literatura a razão de viver. “Eu queria estudar para descobrir coisas que as pessoas liam, sabiam e eu não”, lembra. Moradora da Granja Viana há 14 anos, a filósofa e escritora escolheu a região para viver atraída pela beleza do verde e contato intenso com o verde, situação bem diferente daquela que encontrava em seu apartamento no Sumaré. “A primeira vez que vim para Granja Viana me apaixonei”, descreve. Natural de Barra Mansa, Rio de Janeiro, trocou o seu estado por  mor. Literalmente.

Seu noivo, hoje marido, Henrique, veio trabalhar em São Paulo. Não restou alternativa além de  concluir a faculdade e se casar. “Logo fiquei grávida, então, não iniciei uma carreira profissional.  Fiz questão de cuidar dos meus filhos, mas nunca parei de escrever, nunca deixei da vida de  cultura”, disse. E também não deixou de compartilhar o seu conhecimento. Paralela à vida de mãe, Sônia fazia trabalhos voluntários, contava histórias para crianças, fazia cursos para se aprimorar. “Criança sempre foi a minha paixão”, garante.

E é para o público infanto-juvenil que ela escreveu o livro “O Pequeno Grande Rio” e “O Menino da Cidade”, que serão lançados no dia 12, na Granja Viana. “Quero trabalhar

forte com estes livros, levar para as escolas e falar com as crianças”, afirmou. Sônia recebeu

a reportagem em sua casa em um condomínio e falou de sua trajetória, da paixão pela literatura, dos tempos em que as pessoas gostavam de conversar. Segundo ela, depois da televisão, agora  são os aparelhos de celulares, computadores, tablets que têm tirado as pessoas de vivenciarem bons momentos de conversa.

Sônia entre o marido Henrique (à esq.) e o editor Sérgio de Castro
 

“Tenho medo que um dia tudo isto [áreas

verdes] acabe. Sei que ninguém segura

o progresso, mas podemos respeitar

mais a natureza. É muito triste o que

estão fazendo com a região”

 

Entrevista

Comece falando de sua infância.

Nasci em Barra Mansa, interior do Rio de Janeiro. Todos se conheciam, não havia televisão. A alegria era reunir na casa dos meus pais que ficava em um lugar alto e tinha uma varanda grande.

Jantávamos às 18h e ficávamos conversando. Naquela época se conversava, isto me faz falta. Quando vejo hoje  como vive a sociedade com toda esta tecnologia, evolução, acho um pouco nocivo este apego a estes aparelhinhos. Antigamente, a televisão tirou um pouco este papo gostoso que se tinha em família, hoje em dia são estes aparelhos. Eu era louca para estudar. Com seis anos entrei para o grupo escolar Barão de Eiro Oka e fiz o primário. A dona Carmela foi minha primeira professora e eu cito no livro “O menino da cidade”. Gostava muito de ler, nunca fui primeira da sala, mas eu tinha vontade de aprender. Quando a professora começava a ensinar, eu adorava. Eu adorava história e geografia. Inicialmente, eu queria fazer medicina, mas

um dia, indo para casa, vi um acidente na estrada. O caminhão passou por cima de algumas pessoas e aquilo me chocou de certa maneira que percebi que não poderia fazer medicina. Fui fazer filosofia.

 

A tecnologia afasta as pessoas da literatura também?

Acho que sim, embora os jovens leiam livros pela internet, podem baixar, mas acontece que o manusear o livro é mágico Quando quero me informar, baixo conteúdo da internet, mas para ler um livro não abro mão de pegar no papel.

 

E como foi a tua trajetória profissional?

Até terminar a faculdade, eu só estudava. Quando terminei filosofia, meu marido trabalhava em  São Paulo e ia todo final de semana para o Rio. Um dia, o ônibus bateu e ele quebrou a perna. Minha sogra ficou preocupada e falou que era melhor nos casarmos. Fiquei grávida logo depois e optei por ficar com a minha filha. Não tinha com quem deixa-la. Esta foi a minha opção e me orgulho muito. Sou uma pessoa empreendedora, se eu tivesse trabalhado em qualquer ramo, teria sido uma boa profissional porque sou uma administradora fantástica. Só meu marido trabalhou a vida toda, e eu sempre administrei muito bem o dinheiro dele. Criança sempre foi minha preocupação, por isto acompanhei cada passo dos meus filhos. Morei 30 anos no Sumaré. Embora eu fosse mãe, esposa, dona de casa, quero acrescentar que trabalhava muito na  comunidade, dava palestra para jovens, crianças, idosos. Eu lia, amo ler, no meu livro falo disto, porque quando leio saio de mim.

 

O que você está lendo no momento?

Estou lendo “Decameron”, de Giovanni Boccaccio, um livro de 1348 que fala da peste negra na Europa, eu vivencio cada parte da história. É um prazer tão grande. Quando casei e

fui mãe, continuei a minha vida de cultura, nunca parei de estudar, fazer curso de inglês.

 

E quando veio para a Granja Viana?

Em 1996, meu marido, depois de 27 anos em uma empresa, foi demitido. Ele abriu uma empresa e faz o mesmo trabalho de antes. Nunca fomos ricos, mas morávamos em um apartamento duplex no Sumaré. Quando o Henrique perdeu o emprego, as duas meninas estavam na faculdade e o menino em vestibular.  O padrão de vida que tínhamos com dois apartamentos, dava despesa em dobro. Vendemos um apartamento. Vim à casa de uma amiga aqui na Granja

Viana, e me apaixonei pelo verde, pela tranquilidade. Começamos a procurar um terreno.

Compramos em 1996 e em 2000 começamos a construir e mudamos.

 

Você foi atraída pelo verde da região. O crescimento dos últimos anos te preocupa?

Muito. Até me filiei a muita coisa. Políticos não estão nem aí para a região, eles não pensam no povo e em cumprir o papel que a eles é devido. Só pensam na próxima reeleição. Desde a  prefeitura de cidades pequenas até a Presidência da República é o que interessa ao partido político. Fiquei muito tempo com o MDGV [Movimento de Defesa da Granja Viana] e tenho medo que um dia tudo isto acabe. Sei que ninguém segura o progresso, mas podemos respeitar mais a natureza. É muito triste o que estão fazendo com a região. Quando comprei aqui, plantei

muitas árvores. Acho que é possível ter árvores no quintal. Tenho duas árvores nativas na minha calçada, as únicas que estavam aqui, hoje tenho aroeira, pau brasil, jabuticabeira, abacateiro e pinheiro. Quando o Fernando Henrique saiu do governo foi apertado, mas ele arrumou a casa. Se você deve e quer por a casa em ordem, corta despesa. Ninguém sai mais, não compra roupa, até organizar a casa. O Brasil estava pronto para deslanchar. O Lula fez o primeiro governo nas águas do que o Fernando Henrique construiu. Não gosto muito de falar de política porque não sou partidária, mas gosto de ver pessoas comprometidas.

 

Como foi a sua aproximação com a literatura?

Minha aproximação com a literatura, na verdade valorizar, porque eu sempre li, foi com

a minha professora de Português, dona Berenice Salgado, que também homenageio no

livro.

 

Mas isto em que momento?

No ginásio. A dona Berenice era professora de Português e História, que são as matérias

que eu mais gosto. Quando ela destacava a elegância como os autores escreviam, nos mandava

analisar um período, para mim não era chato, eu adorava aquele jogo de palavras. Foi ai que surgiu o meu gosto pela literatura.

 

Quantos livros a senhora já escreveu?

Tenho vários rascunhos, mas publiquei dois. Meu marido que imprimiu e falou que eu

não devo mais parar. Ele sugeriu que eu pare com tudo e só escreva.

 

Tem intensão de publicar os outros?

Vamos esperar, quero trabalhar bastante em cima destes. Tenho livro da Família, Um conto de Natal, O sumiço das gaivotas, A Tartaruga Josefina, tenho muita coisa.

 

No que você se inspira?

Normalmente sou inspirada por fatos que aconteceram e monto a história. O escritor

tem muita imaginação. Eu gosto de livros que detalham, como Victor Hugo, ai você se transporta. Eu utilizo muito isto. “O Menino da Cidade”, por exemplo, é baseado na experiência do meu filho no casarão da família.

 

O público infantil é o teu alvo?

Gosto de escrever para crianças, mas escrevo para adultos também. “Um Conto de Natal” é para adultos.

 

Você está escrevendo alguma coisa?

Estou terminando, fazendo correções, em “Um Conto de Natal.” Livro é aquele negócio, você  sempre corrige até o último minuto. Este livro que publiquei pode até parecer pequenininho, mas procurei escrever com elegância, com um bom português, de modo que as crianças vivam aquele momento descrito. Este é o valor do livro, não importa se ele tem 700 ou 40 páginas,

o que importa é o que você quer dizer.

 

Perfil

Religião: Católica

Sonho: Ver o nosso Brasil se preocupando mais com o povo e

com as crianças

Revolta: Usarem tanto poder para o mal

Hobby: Ler e escrever

Orgulho: Minha família

Político que o admira: Brigadeiro Eduardo Gomes [não

chegou a ser eleito presidente] e Fernando Henrique Cardoso

Uma cidade: Rio de Janeiro e Fortaleza

Um prato: Dobradinha

Bebida: Guaraná

Um cantor: Chico Buarque, Jair Rodrigues e Orlando Silva

Time de futebol: Fluminense

Esporte: Vôlei

Uma saudade: Da varanda da minha casa, em Barra Mansa

Formação: Filosofia Letras

Natural de: Barra Mansa (RJ)

Casada com: Henrique

Filhos: Ana Paula, Patrícia e Henrique



Fonte: Sérgio de Castro
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